segunda-feira, 15 de outubro de 2012

quarta-feira, 28 de março de 2012

solidão

 Abro o guarda-roupa e aqueles trapos me recusam em revolução. Agarram-se aos cabides e se fingem de mortos, pedem em silêncio para serem enterrados no cemitério de roupas, o tal "brechó". As gavetas insistem em não abrir, seguram firme umas nas outras, enferrujam urgentemente e não abrem. Os papéis, as letras, os curingas, as invenções. O toca-discos está rouco. Não há música que dure por muito tempo em meus ouvidos. Pego o telefone de lata com as mãos frias de tristeza e ligo para o número cósmico. Tum, tum, tum. Do outro lado da linha eu ouço lágrimas. Eu ouço o café esfriar. Eu ouço você dizer adeus. Eu só não ouço o meu coração bater.

quarta-feira, 14 de março de 2012

das lágrimas

 Ela nunca disse adeus. Acordou mais cedo do que de costume, me olhou nos olhos ainda sonhadores da madrugada, fez o café que tanto esquentara nossos dias frios e não tocou na nossa trouxa de roupas tão não usadas. Sentou na minha cadeira de balanço e ensaiou o bilhete de despedida dezenas de vezes. Tanto ensaiou que teve forças apenas para acender um ultimo cigarro. Ele tragou sozinho nossas tristezas. Ela levantou, trancou a porta e não disse adeus. Eu acordei com o gosto do café nos lábios, mas eles não existiam. O maço de cigarros nos bolsos, mas eles não existiam. Ela não existia, e nem sequer disse adeus. Em cima da mesa, de mãos dadas com o cinzeiro, aquele bilhete. Eu sentei, olhei para ele com os olhos embaçados e nada vi. Ele estava em branco. Sem linhas ou entrelinhas. Sem frases ou crases. Sem pontos ou contos. Sem um adeus. Antes que eu pudesse ler alguma  despedida da minha pequena, minhas lágrimas trataram de encharcar o papel. Ela não disse adeus.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

descanavalizar

É carnaval. Hoje as pessoas nao querem ser elas mesmas. Umas viram belas, outras viram feras. De noite Joana é pierrot, de dia Colombina é ator. Eu estou entre as serpentinas e as marchinhas, caminhando pelos restos de alegria. Eu estou sentado no banco de madeira sujando a minha roupa branca e olhando para voces, caros mascarados. Meu carnaval eu faço comigo mesmo, longe de todos e de tudo. É uma regra. Estou deitado em minha cama e no fundo do sono eu ouço os batuques felizes da madrugada. Enquanto voces inventam a alegria, eu tomo meu cha de sumiço e durmo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

o espetáculo vida

  Abram-se as cortinas. Venham. Venham. O espetáculo está para começar. Encontre uma poltrona vazia e sente-se. O maior espetáculo de todos está bem alí, na nossa frente. Atrás dessa cortina os personagens respiram fundo antes de entrar em cena. E fecham-se as portas. Silêncio. Até os passos mais sutis podem incomodar a platéia. Cena 1: Lá estou eu, andando pelos holofotes e de meias brancas, esperando o fim desse teatro mágico. Tropeço e o som do acordeon vai ficando mais alto até que me deixa completamente surdo. Ver é fácil quando se tem olhos fechados. Fecho os olhos. Do meu lado passeiam pessoas em passos de valsa. Apertem os cintos, estamos prestes à decolar. Entre capitão, grite para nossos tripulantes. Olho para o meu lado esquerdo, e vejo direito todas as frases que ele perdeu pelo caminho. "Rumo à lua num tapete voador" - Gritou o senhor capitão, de farda azul espacial. O foguete desaba em pleno cenário e desmonta feito relógio, que tic-tac-tic-tac. O despertador anuncia o fim do espetáculo. Cena 2: Eu estou sentado no topo do universo, e observo todas as cenas. Personagens atrás de máscaras e cortinas. Abram-se os sorrisos. É hora de anunciar para toda a platéia deste mundo que não existe diretor. O teatro é mágico e livre até que as cortinas se fechem novamente.

Fecham-se as cortinas...

sábado, 11 de fevereiro de 2012

caracóis imaginários

  Ela esparramava seus caracóis em cima do menino, todos os dias. Era uma regra. Uma regra só sua. E do menino que aceitava sem resmungar. Eram tão lindos seus redemoinhos dourados. Ele nunca fazia força para se desvencilhar da armadilha. Pelo contrário, todas as manhãs, quando acordava, trilhava até a casinha de boneca da menininha cacheada e ficava sentado na calçada até ela aparecer na janela com a boca suja de café e dizer bem alto para ele: "você está pronto?". Mas que pergunta tolinha, pensava ele em voz baixa. Quando ele não estaria pronto para ela? Então era quando ela descia os três degraus de casa fazendo os doces barulhos de passos frágeis e corria para dentro da casinha, sempre segurando o vestido para não arrastar poeiras cósmicas. Ele arrancava uma flor do jardim, respirava fundo algumas vezes (como seu pai lhe ensinara) e tocava a campainha. A menininha abria a porta com um sorriso laranja de sol e esparramava-lhe os caracóis por toda a parte do corpo. Todos os dias era a mesma regra, sem excessões. Mas certa manhã o menino ficou esperando sua companheira na calçada e ela não apareceu. A flor murchou, a campainha acampou-se na ferrugem e o dia borrou inteirinho o céu de um preto triste. Ele chorou, levantou e olhou para a janela pela última vez. Lá estava ela, desenhada no vidro esbaçado de café. Não era ela que havia sumido, era ele que a tinha inventado.